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BRASIL

De passagem por SP, a vice-presidente do Instituto Weizmann, Michal Neeman, conversou com a StandWithUs Brasil sobre assuntos como papel do Estado no fomento à pesquisa e a importância da inclusão das mulheres em carreiras científicas.

 

Por Sabrina Abreu

 

Quando era adolescente, Michal Neeman teve uma professora de química que a influenciou a iniciar sua própria jornada na ciência. Hoje, vice presidente do Instituto Weizmann, um dos centros de pesquisa mais importantes do mundo, ela cita as medidas tomadas por sua instituição para  incentivar outras mulheres a seguirem a carreira acadêmica no campo das exatas e naturais.

 

Em passagem por São Paulo para participar como palestrante do Congresso Brasileiro de Inovação da Indústria, a professora Michal conversou com a StandWithUs Brasil sobre o papel do governo israelense no fomento à pesquisa e inovação, que revolucionou a economia do país. Falou também sobre os recentes ataques sofridos pela ciência atualmente no mundo, com campanhas contra a vacinação se multiplicando por diversos países e inacreditáveis rumores de que a Terra seja plana proliferando pela Internet.

 

A professora foca sua pesquisa em mecanismos que regulam o processo no qual se formam novos vasos sanguíneos (angiogênese), particularmente no câncer de ovário. Ela acredita que é obrigação do Estado criar políticas públicas para prevenir a doença, controlando a emissão de gases nocivos no ar e de substâncias cancerígenas nos alimentos e lembra que os indivíduos também têm sua parcela de responsabilidade na luta contra o câncer. "Definitivamente, o estilo de vida faz muita diferença."

 

Você veio ao Brasil participar do Congresso Brasileiro de Inovação da Indústria. Como é a cooperação entre o setor público, o setor privado e a academia, em Israel?

 

Há muitas formas de fazer isso. Há uma tendência agora de muitas universidades serem mais envolvidas com o estabelecimento de start-ups e o desenvolvimento de empreendimentos, em suas atividades nos campi. Mas o Instituto Weizmann é bem diferente. Acreditamos que a academia deveria focar em pesquisa, gerando conhecimento, não ser dirigida por retornos imediatos. E é o papel da indústria fazer uso das ideias e invenções que vêm da academia para desenvolver em negócios. Quando você foca em pesquisa fundamental, as descobertas que são feitas durante o processo têm efeito transformador e grande impacto. Essas descobertas têm aplicação prática.

 

Isso me leva à próxima pergunta. Como você avalia o investimento do governo israelense em pesquisa?

 

O governo investe muito em inovação e tecnologia. Para nós, essa é a principal fonte [de investimento] para nossas pesquisas. Graças a acordos que Israel tem, também recebemos fundos de países da União Europeia, como Suíça e Noruega, que é outro importante recurso -- claro colaborações desse tipo são muito importantes para a ciência.

 

Em diferentes países desenvolvidos é reconhecido que financiar a educação, a ciência e, consequentemente, a pesquisa e inovação é fundamental. E é caro.


Claro, ciência é caro. Por outro lado, se você olha para o cenário como um todo, percebe que a pesquisa científica contribui com inovação, que alimenta a indústria. No fim, é um ganho financeiro. Na academia, você converte dinheiro em conhecimento. Mas a indústria pega esse conhecimento para gerar ainda mais dinheiro. Então, o efeito é um ganho. É um investimento.

 

"Claro, ciência é caro. Por outro lado, se você olha para o cenário como um todo, percebe que a pesquisa científica contribui com inovação,

que alimenta a indústria."

 

 

E quanto ao BDS, o movimento que prega o boicote, desinvestimento e sanções à Israel, em diferentes campos, incluindo o acadêmico. Isso tem algum efeito em sua carreira, no dia a dia?

No Weizmann, temos ciências, da matemática à biologia. E, na ciência, [a atuação do BDS] é menos evidente. Nas humanas é mais forte.

 

Já aconteceu de você ser convidada a falar numa universidade estrangeira e militantes contra Israel causarem algum tipo de problema?

 

Nunca aconteceu comigo. Em geral, as pessoas se mostram muito curiosas, quando algo acontece em Israel [relacionado ao conflito com os palestinos], há colegas que perguntam algo a respeito. Mas, nas ciências, as pessoas entendem que há iniciativas globais, que é importante estarmos conectados. Temos grandes questões no mundo, ligadas à saúde e ao meio ambiente, devemos trabalhar juntos para trabalhar nisso.

Entre jovens estudantes, sinto que, se eles têm esse sentimento anti-Israel, se os levamos até o país, eles são expostos à realidade, veem a complexidade da situação e também percebem que o caminho é conectar e unir forças, mais do que separar.

 

Você está falando dos desafios da ciência, ligados à saúde e ao meio ambiente. Ao mesmo tempo em que se buscam soluções, cresce o número de pessoas que parecem duvidar até daquilo que a ciência já tem como certo há anos. São pais que não acreditam que os filhos devem ser vacinados ou gente que diz que a Terra é plana. Parece uma campanha para colocar o conhecimento científico em descrédito. Como você vê isso?

 

Há muita informação falsa na internet e ela é tão acessível quanto a informação científica. Acredito que as pessoas que olham para as notícias de forma ingênua não saberá dizer a diferença entre o que é real e o que falso. Educação científica é muito importante para ensinar às pessoas senso crítico e a ler as informações de modo analítico, tendo dúvidas, quando ideias estranhas sem base científica surgem. Se você pensar nessa campanha contra a vacinação, é algo que se vê em várias partes do mundo e é uma tendência muito perigosa. Precisamos educar as pessoas.

 

Parece um culto à ignorância.

 

E educar é a solução. É nisso que eu acredito. Precisamos educar crianças e o público em geral em relação ao pensamento crítico, ao pensamento científico, como isso pode levar a melhores escolhas.

 

No Instituto Weizmann, há uma preocupação em incluir mulheres, cada vez mais, em carreiras científicas. A ONU também alerta para a importância de termos mais meninas e mulheres estudando ciência, e criou um dia, 11 de fevereiro, dedicado isso. Há um grande esforço nesse sentido, mas estamos longe da equidade. Quais as medidas vocês têm tomado para estimular as carreiras das alunas?

 

Tentamos identificar qual é o ponto em que perdemos os talentos. É muito importante não perder talento, é o maior recurso que a humanidade tem. E se você perder metade da população, é um terrível desperdício. Um ponto que descobrimos que perdemos as mulheres é durante a escola. Quando elas precisam decidir, no ensino fundamental, se farão aulas de matemática ou física avançada, as meninas não se inscrevem para essas aulas. Nossos departamentos trabalham com os professores, para impedir que as meninas se distanciem da ciência, ainda enquanto são adolescentes.

 

Na graduação, temos estudantes mulheres nas biológicas, mas não tanto nas exatas. A faculdade de física está ativamente procurando atrair alunas, estimulando para que elas sejam bem-sucedidas e para que não percamos as poucas que decidem por esse curso.

 

Durante o PhD, temos outra iniciativa. Em Israel, como homens e mulheres só entram para a faculdade após o exército [eles prestam serviço militar por três anos e elas, por dois], é comum que até o momento em que terminam o PhD, alunos e alunas já tenham sua família, com filhos. Então, são jovens famílias e, para continuar seguindo a carreira acadêmica, como Israel é um país pequeno, torna-se essencial ir ao exterior fazer um pós-doutorado. Descobrimos que, frequentemente, é mais fácil para o homem ir com sua família para fora do país do que para uma mulher, mesmo se a esposa tiver um ótimo trabalho em Israel. Para o homem é muito mais fácil isso acontecer do que para a mulher, na mesma situação.  É cultural.

 

Então, começamos a oferecer uma bolsa adicional para convencer essas jovens famílias, incluindo os maridos, a apoiar a carreira dessas mulheres. Esse programa, específico para mulheres, foi tremendamente bem-sucedido e sabemos disso, porque outras universidades em Israel copiaram nosso modelo. Essas mulheres estudaram fora e agora estão voltando a Israel, onde já somam 20% dos professores assistentes. Está crescendo, mas leva tempo.

 

"É muito importante não perder talento, é o maior recurso que a humanidade tem. E se você perder metade da população [as mulheres], é um terrível desperdício."

 

Li recentemente sobre a fuga de cérebros entre os acadêmicos israelenses [segundo dados divulgados pelo Shoresh Institution for Socioeconomic Research, em maio de 2019, para cada profissional com um título acadêmico que retorna ao país, 4.5 continuam no exterior]. Isso a preocupa?

 

Não. Acredito que cientistas mudam. E ser exposto ao mundo é uma coisa boa para a ciência. Aqueles que voltam a Israel ou os que decidem ficar fora, sejam por razões familiares ou profissionais, sabem seus motivos. Não vejo problema nisso.

 

Você pesquisa câncer. É uma doença muito temida. Eu perdi minha prima mais querida no ano passado por isso, e há pesquisas que dizem que quase toda família tem uma história parecida com a minha ou ainda vai ter. Cada vez mais, saem matérias na imprensa falando da importância do estilo de vida para prevenir o câncer. Essas informações fazem mesmo sentido?

 

Definitivamente, o estilo de vida faz muita diferença. Sabemos que a nutrição afeta o desenvolvimento de todos os tipos de câncer, obesidade é um fator de risco, fumar é outro fator de risco. Deixar de fumar diminui consideravelmente as chances de desenvolver câncer. E o estilo de vida é importante, porque atua na prevenção. Parte disso é relacionado às pessoas, como elas se cuidam e se responsabilizam pela própria saúde. E parte também é relacionado ao papel do governo, que deve evitar que as pessoas sejam expostas a altos índices de poluição ou a comidas contaminadas com substâncias que são comprovadamente cancerígenas. Enquanto descobrimos mais fatores de risco, é importante que medidas preventivas sejam transformadas em leis.

 

"O governo deve evitar que as pessoas sejam expostas a altos índices de poluição ou a comidas contaminadas com substâncias que são

comprovadamente cancerígenas."

 

Sei que é uma pergunta sobre o futuro e, Amós Oz, o escritor israelense, dizia que em seu país já há muitos profetas, então ele não gostava de prever o futuro. Mas você acredita que veremos a cura para o câncer nesta geração?

 

O câncer é uma doença que evolui, cada vez que você tenta tratar de um jeito, ele encontra um outro modo de crescer. Acredito que estamos fazendo progressos em mantê-lo sob controle. Se conseguirmos tornar o câncer uma doença crônica, em que a pessoa consiga ter qualidade de vida, será uma vitória. Os tratamentos mais recentes têm menos efeitos colaterais e, espero, vão levar a uma qualidade de vida melhor.

 

Israel é um país jovem que ganhou 12 Nobels, sendo metade deles entregues a cientistas naturais. Ada Yonath, sua colega no Instituto Weizmann  é uma das premiadas. Qual é o segredo do sucesso de Israel na ciência?

 

Acho que o segredo é muita criatividade e falta de respeito pela autoridade. Pessoas questionam, brigam, não se conformam. Você pode ver isso, mesmo num jardim da infância, o modo como as crianças reagem, eles gostam de discutir e isso é muito típico da nossa cultura e é parte do segredo.

 

Não há inovação sem um pouco de rebeldia, né?

 

Exato, exato. Você precisa manter a liberdade de pensamento e de discurso, tem que evitar o autoritarismo, porque isso inibe a criatividade. E sem criatividade não existe ciência.

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